Acabei esta semana de ler o livro: e preenche-me uma mesma sensação crescente desde a primeira página - o livro é simplesmente magnífico e, sem dúvida, que projecta José Luís Peixoto para a esfera dos melhores escritores da actualidade portuguesa.
Pela forma como ele dá vida às palavras, pela forma como elas se transcendem a si mesmo, pelas muito bem construídas intersecções temporais, pelo lirismo cujo aroma se destaca ao longo da obra, ... José Luís Peixoto é deveras um autor excepcional.
Cemitério de Pianos
José Luís Peixoto
(Bertrand)

O livro conta a história de uma família e, dentro dessa história, as inúmeras histórias paralelas de cada um: as conhecidas de todos, as secretas, íntimas de cada um, nunca reveladas, eternamente ocultadas. O amor, a paixão, a tristeza, o ódio, a raiva, a culpa são apenas alguns dos inúmeros sentimentos latentes e explorados de forma extraordinária ao longo da obra.
E tudo em torno de uma velha oficina onde pianos sem corpo - estragados, por arranjar - permanecem em alma. Estão lá. Fazem parte de momentos importantes da vida de elementos da família. E são a própria família. Tal como os pianos têm uma história e, apesar de estragados conservam essa herança... Cada pessoa daquela família tem a sua própria história, mas também a que herdou e há um ténue fio condutor que liga cada elemento ao outro e que os torna uma família... Há um fio que cria uma eterna continuidade, geração após geração... O cemitério de pianos é um lugar mágico de revelação catártica, é o esconderijo perfeito para os mais obscuros desejos: para gritos de prazer e de amor, para actos de adultério, para leituras clandestinas, para vivências de infância...
É arrepiante seguir as palavras dos dois narradores, ora num tempo, ora noutro, acompanhar os seus receios, as suas mágoas, os seus segredos, as suas histórias...
E, por fim, a morte. Não como fim do caminho, mas como início de um novo, como regeneração, como continuidade numa geração seguinte... Deixo mais um excerto da obra para juntar a tantos já publicados neste blog:
"Agora. Agora é uma estaca cravada na superfície do tempo, da mesma maneira que poderia estar espetada na terra. Todas as cordas do tempo se apoiam sobre essa estaca e poderiam suster uma tenda gigante como o céu. Os jardins que rodeiam a entrada do estádio ficaram para trás há muito ou pouco ou muito ou pouco tempo. Em cada passada, um agora diferente. Corro e levo o tempo. Dou uma passada, agora, dou outra passada, outro agora, e continuo: agora, agora, agora. (...) Todo o tempo, anos e décadas que vivi, que não vivi, que viverei e que não viverei existem neste instante."